Reforma urbana mudou o Centro na década de 1930

A partir de 1930, os administradores de Campina Grande passaram a ter um objetivo em comum: modernizar a cidade. Foi nesse período que começou a reforma urbana da área central, modificando a arquitetura e ampliando a infraestrutura. As mudanças mais radicais aconteceram nas gestões do prefeito Vergniaud Wanderley, que mudou a ‘cara’ da cidade. A meta era deixar para trás o aspecto ainda provinciano e adotar uma estética parecida com o estilo de uma metrópole.

De acordo com o historiador Josemir Camilo, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), as primeiras tentativas de urbanização começaram no governo de Lafayete Cavalcanti, que esteve à frente da prefeitura entre 1929 e 1932. Ele foi responsável por iniciar a construção do calçamento da cidade. Também é atribuída a Lafayete a implantação da estrada que liga Campina Grande à capital João Pessoa. Lafayete foi sucedido por Antônio Pereira Diniz, mais conhecido popularmente como “Antônio Peba”, que renunciou ao cargo após pouco mais de um ano e meio de gestão.

A meta da urbanização voltou à tona com Antônio Pereira Diniz, prefeito entre 1934 a 1935. Advogado, foi o primeiro a propor oficialmente o chamado “bota-abaixo”, expressão pela qual ficou conhecido o projeto de demolição de prédios antigos para a abertura de novas avenidas ou para serem substituídos por construções consideradas mais modernas. O ‘bota-abaixo’ foi tema de pesquisa realizada pelo historiador Fábio Gutemberg, já falecido, em sua tese de doutorado.

A pesquisa identificou que Pereira Diniz baixou um decreto, em 1934, regulamentando as construções na área central da cidade, estimulando que as casas térreas deveriam ser substituídas por prédios. O decreto dizia que a medida valia para as ruas João Pessoa, Marquês do Herval, Maciel Pinheiro, Monsenhor Sales e Cardoso Vieira e nas Praças João Pessoa, do Rosário e Epitácio Pessoa. A partir de então só seriam permitidas construções e reconstruções com mais de um pavimento. O prefeito priorizou as áreas que considerava mais visitadas da cidade.

Até o decreto, os únicos investimentos da prefeitura foram apenas para melhoramento de ruas, como terraplenagem e calçamentos, ou ainda alinhamento de ruas e algumas desapropriações de casas. “Este decreto é um dos sinais de que nos anos 30 os prefeitos de Campina Grande haviam aderido aos reclames dos letrados locais, buscando meios diversos para a consecução de um projeto de saneamento e embelezamento da cidade”, afirmou Gutemberg em sua tese de doutorado.

Pereira Diniz não chegaria a ver, como prefeito só resultados do decreto, implementado pelos sucessores nos 10 anos seguintes. Mas o prefeito foi o responsável em 1934 pela demolição da antiga cadeia, na época instalada onde hoje fica a Praça Clementino Procópio. A prisão foi substituída com a construção de uma nova penitenciária mais afastada do Centro, no Monte Santo. Ele iniciou ainda a implantação do sistema de saneamento e abastecimento de água da cidade.

As demolições de Vergniaud Wanderley
As mudanças mais drásticas viriam com Vergniaud Wanderley, que administrou a cidade em dois mandatos. Filho de tradicionais famílias de proprietários de terras no Sertão do Estado, exerceu diversos cargos no Ministério Público de Santa Catarina e voltou à Paraíba através do convite do então governador Argemiro de Figueiredo, que o indicaria para assumir a Prefeitura de Campina Grande em 1935.

No curto tempo do seu primeiro mandato, deixou como marcas a instalação de telefones automáticos, a reforma da Praça Coronel Antônio Pessoa, o calçamento de inúmeras ruas e avenidas. Também foi nessa primeira gestão que iniciou a construção de um de seus projetos prediletos, a construção do Grande Hotel, prédio onde atualmente funciona a Secretaria de Finanças da Prefeitura de Campina Grande, na avenida Floriano Peixoto.

O objetivo era construir um edifício moderno em um dos pontos centrais da cidade, com arquitetura art déco, para marcar sua passagem como administrador de Campina Grande. A ideia era oferecer um ‘cartão de visitas’ para quem chegasse à cidade.
Na segunda gestão, entre 1940 e 1945, Vergniaud empreendeu o ‘bota-abaixo’. Demoliu o antigo Paço Municipal, sede administrativa desde a época do Império. O local é ocupado atualmente pelo estacionamento da catedral. Ele derrubou ainda a Igreja do Rosário, que ficava entre a Praça da Bandeira e o Cine Capitólio, para abrir a avenida Floriano Peixoto. O projeto era construir uma artéria atravessando o município. A diocese foi indenizada e a igreja reconstruída no bairro Prata.

A iniciativa gerou polêmica. Também foram demolidas várias casas nas proximidades da igreja e em outros pontos onde a avenida deveria passar, incluindo casarões de ricos comerciantes e proprietários de terras. Houve resistência de alguns moradores. O modelo que ele pretendia adotar era parecido com o que aconteceu no Rio de Janeiro, onde cortiços foram derrubados para o embelezamento da cidade.

Vergniaud também iniciou o ordenamento do Açude Velho e tentou afastar bares de prostíbulos das áreas centrais da cidade. Praticamente destruiu a chamada “Rua Grande”, derrubando casarões e pontos comerciais, para dar lugar ao que conhecemos atualmente como a Rua Maciel Pinheiro. Com a meta de tirar a aparência de ‘vila’ que o município ainda tinha, foi o prefeito responsável por dar a feição que conhecemos sobre os principais pontos do Centro.

Projeto de Urbanização continuou
Os prefeitos que sucederam Vergniaud deram continuidade ao projeto de ordenamento urbanístico de Campina Grande, mas nenhum deles com o mesmo vigor. “A reforma pra valer é a de Vergniaud. Creio que outros deram continuidade ou complementaram o que Vergniaud implementou. Afinal, foi ele que radicalizou a remodelação em sintonia com o discurso higienista. Fez uma “limpeza” em tudo que considerava inestético aos olhos da elite campinense. Por exemplo, erradicou os feirantes e as prostitutas para o bairro das Piabas, a Feira Central hoje”, explicou o historiador Gervácio Batista Aranha, da UFCG.

Entre Antônio Pereira Diniz e Verginaud Wanderley, a cidade foi administrada também por Bento Figueiredo, que foi nomeado prefeito pelo irmão, o governador Argemiro de Figueiredo. Foram dois curtos mandatos, o primeiro em 1935 e o segundo de 1938 a 1940. Constribuiu para o projeto de urbanização ao instalar o Mercado Central, deslocando a feira que funcionava na área onde atualmente está a rua Maciel Pinheiro. Reformou o Cemitério do Monte Santo.

Em 1945, quem assume sucedendo o segundo mandato de Vergniaud é Severino Gomes Procópio. Na sua gestão também foram realizadas obras estruturantes: pavimentou a Praça João Pessoa, construiu galerias nas ruas Getúlio Vargas e João da Silva Pimentel e realizou parte do calçamento da rua João Suassuna. Na parte de higienização, concluiu as obras do Mercado Público e remodelou completamente o Matadouro Municipal. Expandiu a rede elétrica, construiu um novo edifício para a empresa de Força e Luz e aperfeiçoou a montagem com um novo gerador.

No mesmo ano assumiu Raimundo Viana de Macedo, que construiu a nova igreja do Rosário, em substituição à derrubada por Vegniaud para a abertura da Floriano Peixoto. Ele foi sucedido por Anfrísio Ribeiro, por apenas dois meses, e em seguida por Antônio Luiz Coutinho, que permaneceu no cargo de 1946 a 1947.

O último prefeito do período em que o ocupante do cargo era indicado diretamente por escolha do governador foi Sabiniano Alves Maia, que além de ter sido o chefe do Executivo campinense também foi nomeado pelo governo estadual para administrar outras três cidades do Estado: Mamanguape, Sapé e Guarabira.

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